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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

TEXTO PARA PUBLICAÇÃO - HELDER SALGADO


 o Tobias não embarcava em utopias


O velho Tobias era um cidadão alandroalense.
   Tornara-se um homem carismático pelos seus ditos, sempre oportunos e  originários de uma grande reflexão, que fazia dos momentos mais atribulados da sua vida.
   Nasceu na freguesia de nossa senhora da Conceição e lá morreu.
   Fora tropa em Vila Viçosa, fez guardas à rainha dona Amélia e conheceu o rei D. Carlos, de quem se dizia admirador.
    Enquanto servidor do exército considerou o Palácio Ducal a sua segunda casa.
   Zé Tobias, moço de trinta anos, casado e pai de um lindo casal de gémeos, sofreu após a sua saída da tropa, o maior desaire da sua vida.
    Acreditava e explicava, que fora a queda da monarquia, a razão de ter sido posto fora do exército.
    Gostava de ter seguido a política e a disciplina da tropa, não tanto pelo vencimento, que embora certo e bem regrado pela esposa chegava para manter a casa no Alandroal, junto à horta da Bica, onde sempre viveu, mas pela vaidade que sentia quando de uniforme vestido.
    Sentia-se bem dentro daquele fato de cotim militar no Verão e de saragoça no Inverno.
    E o boné?
   Cada dia que o colocava na cabeça tinha que se ver ao espelho.
   Vinha a casa de oito em oito dias, vinha sempre a pé, exceto quando recebia o pré, nesse dia vinha na diligência do estafeta Manuel Colunas, que fazia carreira dia sim, dia não, entre o Alandroal e Vila Viçosa.
     Tirava um bilhete de segunda classe, donde emergia a obrigatoriedade de se descer nas ladeiras. No percurso entre as duas povoações descia-se em três. Na ladeira do alto de nossa senhora, algumas vezes tolerada e na de Pardais e do alto Carambou de obrigação.  
    Quando se descia na praça e passava em frente da taberna que fora do avô do Pimenta, o velho taberneiro gritava-lhe:
- Oh meu capitão, não vai um copo? 
   O Tobias sorria e com um ar superior e vaidoso lá bebia o seu copito.
   Fora da tropa e não se deixando abater pelo despedimento, logo arranjou trabalho e nos domingos, quando por vezes tinha folga, ia para o campo arranjar algo para o sustento da família.
   Cardos, agriões, “tubarões” cogumelos e alguma azeitona para pisar e retalhar, tudo isto, levava para casa. Conhecia bem as azinheiras que davam boletas doces para o magusto, aproveitando o lume que fazia nas noites invernosas.   
    Olhar para as mãos dos outros, nunca olhou.
    Tive conhecimento de uma das suas reflexões, que eu na minha modesta maneira de ser e de pensar e, com a vivência dos meus anos, classifiquei de política.
    A ditadura tinha caído havia ano e meio.
    A instabilidade apoderou-se no país e o desentendido no exercício do poder era perfeito e conducente um descalabro financeiro.
    O cenário, campestre, situou-se junto a meio caminho da estrada das Hortinhas/Terena, num dia frio mas soalheiro dum Inverno que se adivinhava longo, no lugar chamado de Chaparral.
    Naquele dia eu era tratorista de ocasião.
   Tinha ido buscar lenha, grossa e migada, que o Adélio Salgado, carteiro de profissão, tinha cortado das velhas azinheiras para estas reverdecerem.
Escutem-nos esta conversa.
- Lembraste Zé do velho Tobias? - pergunta o carteiro ao primo Zé Salgado, ferrador de ofício e alandroalense como o Adélio, ambos a trabalhar e a morar na freguesia de São Pedro de Terena.
- Se me lembro - respondeu o ferrador, abrindo um sorriso denunciador das recordações do velho Tobias.
   O carteiro pressionando um pequeno pau entre o polegar e o indicador diz para o primo.
- Lembras-te do velho Tobias dizer isto - e apontando para o pequeno palito, continuou - Agora estão os republicanos em cima - e invertendo os dedos diz - Amanhã estão os monárquicos. O Povo está sempre no meio, sempre entalado. - Concluiu com uma firmeza inabalável o primo Adélio.  
    Estou a falar de três gerações que, por curiosidade, poderíamos associar a três sistemas políticos - monarquia, república e democracia. 
   Ao ler a imprensa bloguista Alandroalense nela se levantam uns novos/velhos arautos, tentando tocar um novo hino, com uma trombeta velha, roufenha, de anúncios políticos, gastos, inatingíveis, tentando enganar os incautos.
   O Alandroal, o Concelho não necessita de novas demagogias e muito menos de demagogos sobejamente conhecidos e causadores do aprofundamento concelhio, precisa isso sim, de homens que façam parte da solução num caminhar honesto e credível.
   Os Alandroalenses tal como O TOBIAS NÃO VÃO EMBARCAR EM UTOPIAS. 

Helder Salgado.
15-12-2012.

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